Tidú – remédio pra alma

Eu tava no olho do furacão dos meus 40 anos, no meio daquela crise de bússola desorientada. Prestes a me separar (depois de 14 anos), não via mais nada, tava completamente cega. Entrei num processo anoréxico, melancólico, não curtia como devia as crianças e, lógico, afogava as mágoas no trabalho. Até aquele momento eu nunca havia cruzado uma fronteira social, não tinha vida de dondoca, pq ralava muito, mas era bem patricinha – toda familia, casa trabalho, shopping, passaporte, cabelereiro.

Foi quando uma amiga, daquelas amigas; amigas mesmo, Adri Costa, fez um convite e me levou para o Espírito Santo ( olha bem o nome do lugar e s p i r i t o  s a n t o), ajudar uma outra amiga dela, a Ninom, que planejava montar uma ONG, “O Caminho das Tradições Sagradas”  e eu tinha que fotografar e depois montar um projetinho . 2h de avião, 4h de carro numa estrada que parecia estar num trem fantasma de tantos perigos. Enfim, chegamos praticamente abduzidas num vilarejo, um cenário, quase na fronteira Bahia. Fronteira mesmo porque chegar lá parecia, um faroeste a caminho do fim de mundo ou seria a caminho do paraíso.

 

 

a parteira Tidú

 

Naquela noite encontrei a primeira deusa do feminino, aquela mulher que fez mudar o meu olhar para o mundo e consequentemente, mudou o rumo da minha vida. Tidú era parteira, conselheira, psicóloga, curandeira, ….eira, ela não contava história ela recitava as histórias e eram tão envolventes que se Guimarães Rosa tivesse escutado, teria se apaixonado.

Não havia um problema sem oração e sem solução.

Não havia uma erva , um matinho, que não curasse.

Ela era tão original que até o velho casaco rasgado, tava amarrado de uma forma mega fashion. A Dri e eu sentamos aos pés dela, enquanto Ninom fazia todas as perguntas e conduzia a conversa. Ficamos muitos dias juntas, e no final eu era a “fiel guardiã” de histórias incríveis.

Eram histórias além dos partos,  no fundo Tidú era uma grande terapeuta, aquela sábia como a avó-árvore do filme da Pocahontas.

Depois de uns dias, #surteigriteichorei, desabafei, pedi conselhos, vomitei meus segredos e  abri todos os medos pelo meu futuro. Ela olhou pra mim com aquela carinha de vóz da consciência e falou:

“Tem que chegar alguém na planta pra não murchar.

“Ocê tem que viver da forma que a ocê quer, pra ser feliz”

“Faça um mingau, beba e agradeça a Deus o dia que você vive”…. então Tidu completou:” eu faço o sinal da cruz e peço licença a Deus pra descansar e pra Nossa Senhora dos Passos pra me guiar no dia seguinte”.

No primeiro instante não entendi nada, queria respostas, tipo faço isso ou aquilo? Vou não vou? Caso ou compro uma bicicleta? Mas depois eu entendi –

tradução: É  vc tem que fazer algo por vc mesma, tem que se cuidar, se não acaba morrendo ou adoecendo, vc tem que fazer as coisas que te deixe feliz, que te dê prazer. Não existe remédio, vc tem que parar de se lamentar e começar a agradecer o que vc tem, volte a se nutrir, que vc alimenta o corpo e o espirito. Então ela disse: ” A noite quando eu vou dormir e não sei como resolver um problema, eu peço liceça a Deus pra dormir em paz  e que no dia seguinte eu saiba o que e como resolver”. Pedir licença a Deus seria reconhecer uma força uma energia maior que não te abandona. e todo dia, naquela hora que me boicotava eu pensava – tenho me regar como planta e alimentar o meu espírito, parace óbvio, mas na hora funciona.

Naqueles dias eu aprendi uma palavra chave “confiança”. Foi Tidu quem me inspirou a descobrir se as parteiras em geral seriam como ela. Fortes, sábias, conselheiras, mulheres que se propõe a ajudar os outros. Assim começou a minha busca da essência do feminino. O que essa nova Bia Fioretti pretente com isso?   Descobrir o que todas essas mulheres tem em comum, qual é essa essencia que temos em comum,  independente da cultura, raça ou religião. Assim nasceu o meu projeto pessoal, Mães da Pátria – Movimento de Resgate do Feminino através das Parteiras Tradicionais – foi por acreditar e conviver na energia que tem mulheres como ela que me tornei outra pessoa. Eu consegui superar  um monte de crise, me desconstruí e me reconstruí ( veja o post da CAOS) e aprendi a ajudar outras pessoas.

Nunca conheci parteira triste, ou parteira feia ou parteira que reclamasse da vida. Uma parteira nunca se sente só, sempre escuto: Era eu e Deus…

Semana passada, estava numa roda de mulheres, no encontro da lua Nova, organizado pela Sabrina, e conheci a Alba, que tava de passagem por São Paulo (vc não acreditaria mas ela tava sentada do meu lado). Não sei como o assunto surgiu mas ela também conhecia Tidu e havia feito um outro trabalho sobre o resgate da ancestralidade daquela vila mágica, foi quando ela me falou que ela Tidú tinha morrido, há poucos meses (2009).

Tidu é a parteira nº 1 das mais de 900 mulheres que já entrevistei.

Apesar de beata, Tidu era mesmo uma religiosa do próprio espírito .

2 Comentários

Arquivado em ANCESTRAL, SURTEI, GRITEI, CHOREI, TODOS OS SANTOS

2 Respostas para “Tidú – remédio pra alma

  1. Marilia

    Essa história me arrepiou! Imagino ela te olhando e dizendo as coisas… nossa! Arrepia mesmo hahaha

  2. Regine Marton MS RN CNM

    Eta mulher….. vai com toda forca!!!

    Bejooos

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